Mais Cervejeiras americanas entram no negócio da maconha

Pé de maconha – Fabio Seixo / Agência O Globo

O que as cervejeiras americanas estão fazendo para se protegerem contra a queda no crescimento de sua principal operação? No caso da empresa mãe da Corona, a resposta é: investindo com força na indústria da maconha.

A Constellation Brands, que produz ainda os vinhos Robert Mondavi e a vodca Svedka, anunciou na últijma quarta-feira um aporte de quase US$ 4 bilhões na Canopy Growth, produtora de maconha canadense com capital em bolsa. Com o acordo, vai ampliar sua fatia na empresa de 10% — com a participação adquirida há quase dez meses, com foco em ajudar a criar bebidas não-alcoólicas à base de cannabis, entre outros produtos — para 38%, com a opção de chegar a 50%.

O investimento da Constellation na Canopy — o maior já divulgado na indústria da maconha — dá uma mostra do quão longe as tradicionais companhias de bebidas alcoólicas estão dispostas a ir para crescer. Num momento em que a venda de cerveja está em queda no mercado americano, as fabricantes começaram a apostar que a legalização da maconha ao redor do mundo, especialmente nos EUA, continuará a abrir caminho para que as vendas de produtos feitos com a erva decolem.

O movimento dos grandes grupos de bebidas alcoólicas, como Constellation Brands, Molson Coors e Heineken, deverá ser acompanhado por companhias dos setores farmacêutico, de tabaco e de produtos industrializados, segundo analistas.

— Companhias que eu não poderia imaginar que teriam interesse nesse segmento estão atentas a oportunidades de forma ativa agora — disse à Bloomberg Brendan Kennedy, CEO da canadense Tilray, que mantém uma parceria com uma divisão da gigante farmacêutica suíça Novartis para o desenvolvimento de medicamentos à base de cannabis.

O investimento da Constellation na Canopy Growth, diz ele, dá maior legitimidade a uma indústria cada vez mais aceita como de produto para consumo, oferecendo novos mercados a serem explorados pelas grandes corporações.

MERCADO APRESENTA DESAFIOS

Nesse caminho, no entanto, não faltarão percalços. Embora diversos estados americanos tenham legalizado o uso recreativo da maconha nos últimos anos, comprar ou processar a erva continua a ser um crime em âmbito federal. Em novembro, a Constellation declarou que não planeja vender produtos fabricados a partir de Cannabis nos EUA, enquanto a proibição à comercialização for mantida.

Em paralelo, a legalização da maconha avança em mais e mais países — no Canadá, por exemplo, o uso recreativo será liberado a partir de 17 de outubro — e as fabricantes de bebidas alcoólicas estão tentando entrar na indústria do cânhamo antes de serem derrubadas por ela.

Mas quão preocupadas estão as cervejeiras? A Molson Coors lista a legalização da maconha entre os principais riscos ao seu negócio em relatório aos acionistas divulgado no início do ano: “Com a Cannabis sendo legalizada em diversos estados americanos e no Canadá, pode haver uma fuga de investimento em nossos produtos ou uma mudança na preferência do consumidor, afastando-o da cerveja”.

O avanço na legalização do uso recreativo da marijuana trouxe uma série de riscos em potencial e também de oportunidades para outras indústrias. A alcoólica, que já sofre com a queda do consumo de bebidas entre os mais jovens, tem visto as vendas caírem em mercados onde a maconha foi liberada. É o caso da Booze, que vendeu 15% menos em estados americanos onde o uso medicinal da erva teve sinal verde, outros devem seguir o mesmo caminho, de acordo com um estudo feito pelas universidades de Connecticut e do Estado da Geórgia.

— A indústria de bebidas alcóolicas é a primeira entre as grandes a perceber o movimento e a fazer algo a respeito, e acredito que uma série de empresas de todas as categorias de consumo vão fazer o mesmo — disse Jéssica Lukas, vice-presidente de tendências de consumo da BDS Analytics, empresa de pesquisa em cannabis.

De infusões com THC, o princípio ativo da maconha, a cremes tópicos à base de cannabidiol, as oportunidades de mercado são enormes, disse Smoke Wallin, ex-executivo da indústria de bebidas alcoólicas, atualmente dietor de vendas e marketing da Vertical Companies, produtora de maconha californiana. A Heineken e a Molson Coors passaram a vender chás feitos com o fumo.

— Acredito que, feito de forma correta, está em linha com cerveja, vinho e outras bebidas em termos de categoria e também em termos de tamanho, escala e alcance. Não acontece nada parecido desde o fim da proibição ao álcool em 1933 — disse ele.

Os gastos mundiais com o consumo de marijuana deve bater US$ 32 bilhões até 2022, triplicando os valores atuais, diz relatório divulgado esta semana pela BDS and Arcview, impactando várias categorias de consumo, incluindo tabaco.

— Como líder no segmento de bebidas alcoólicas, esperamos retorno de nosso investimento em Cannabis, que vemos como complementar ao nosso portfólio de cervejas, vinhos e outras bebidas — disse Robert Sands, CEO da Constellation, em teleconferência com jornalistas.

DISPOSITIVOS ELETRÔNICOS SÃO PONTE PARA INDÚSTRIA DO TABACO

O uso de crescente de dispositivos presentes na indústria do tabaco, como vaporizadores, continua ele, pode ser facilmente adaptada para o setor da cannabis.

— É algo que terá um imenso efeito na indústria do tabaco, maior que no de bebidas alcoólicas, ainda que isso ocorra de forma mais indireta — disse MacGuill.

No mecado de tabaco, a participação no setor da erva é lento. A One International, com sede em Morrisville, na Carolina do Norte, produtora de folhas de tabaco, comprou 75% da canadense Island Garden, especializada em maconha para uso medicinal, enquanto a britânica Imperial Brands detém uma fatia na Oxford Cannabinoid Technologies.

Os dispositivos eletrônicos sem fumaça são “uma entrada óbvia” para as companhias de tabaco no mercado da cannabis, disse Peter Luongo, diretor da Rothmans, Benson & Hedges, subsidiária canadense da americana Philip Morris. A empresa, no entanto, não tem intenção de dar esse passo num “futuro próximo”, afirmou ele.

— Há muitas oportunidades com os milhões de canadenes fumantes passarem a usar dispositivos eletrônicos sem fumaça. Há ainda mais oportunidades em termos de ganho de participação de mercado, margens, avanços em saúde pública, para poder crescer nessa direção sem se deixar distrair por outras possibilidades — alertou Luongo.

Essas iniciativas ousadas, porém, ainda enfrentam muitas barreiras. O Departamento de Justiça endureceu sua posição em relação a crimes relacionados à maconha, tornando o futuro da regulamentação da erva incerto. Existe ainda possível resistência da parte dos acionistas dessas companhias.

O Globo, com outras agências internacionais

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